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O presente mais precioso – Just So Brasil
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O presente mais precioso

Por Carolina Mathias

 

Foi-se o tempo em que nossos bens eram medidos em cifrões. A frase “tempo é dinheiro” pode até ter sua parcela de realidade, mas o que estamos entendendo, ao longo do tempo, é que tempo é Vida. Indo além do pensamento de que tempo é dinheiro, uma nova forma de pensar vem surgindo: “quanto de Vida você deu em troca desse dinheiro?”. Licença poética: manterei a palavra Vida com inicial maiúscula, para lembrarmos constantemente de sua importância e, mais que isso, de sua sacralidade.

 

Seguindo essa lógica, nosso tempo é o presente mais especial que podemos dar a alguém. Ao dedicarmos tempo estamos simplesmente dedicando nossa Vida, estamos nos doando.

 

Podemos doar nosso tempo de forma direta ou indireta. A forma indireta é quando trabalhamos (trocamos tempo por dinheiro) e compramos algo pra presentear alguém. Esse objeto é a medida de quanto vale o tempo que estamos doando, a Vida que estamos doando, muito embora esse valor seja totalmente subjetivo, porque, por mais que R$ 100,00 seja R$ 100,00 pra todo mundo, é só cada um que trabalhou para conseguir aqueles R$ 100,00 que sabe o real valor, em Vida, que esse montante representa.

 

Raramente essa conversão será direta, raramente R$ 100,00 terão o mesmo valor para duas pessoas.

 

E, se falando em valores monetários a conversão entre duas pessoas já não é direta, imagine quando esses valores saem. Pois é, quando os valores saem, algo mágico acontece. Algo que só surge nesse ambiente que descrevemos como “calor humano”.  A magia do olhar, do toque, ou simplesmente da presença, de estarmos lado a lado. Uma verdadeira alquimia, um tanto quando inexplicável – não porque não tenha explicação, mas porque quando tentamos explicar, algo na magia se rompe. É porque é. Sabemos que é e isso basta. E assim é quando doamos nosso tempo de forma direta, estando com a pessoa presenteada.

 

Antes de prosseguir, duas ressalvas: a magia só acontece quando a doação é pura e sincera. O amor só se estabelece quando antes de mais nada temos amor por nós mesmos e nos respeitamos na vontade de estar ou não ali. E em segundo lugar, mas não menos importante, uma vez que estamos ali por livre e espontânea vontade, é preciso abrir o coração para o outro, afinal, estamos dando um presente. Nesse momento de doação estamos atentos às necessidades do outro e vamos expandir os limites dos nossos quereres, das nossas vontades, permitindo-nos atender a vontades alheias, mesmo que aquilo não fosse exatamente o que faríamos se não estivéssemos naquele momento de entrega. E ao expandir esses limites vamos também nos conhecendo melhor e observando coisas que habitualmente não faríamos, mas que podem se revelar muito bacanas. E vamos conhecendo também nossos limites mais duros, pontos de onde não é possível passar, por mais que tentemos abrir mão de necessidades egoístas. É importante respeitar esses pontos. Não podemos nos machucar pra atender o outro…

 

Esse mecanismo funciona em toda forma de presentear. Entre amigos, entre casais, entre familiares e até entre desconhecidos, mas também não só entre pessoas. De você pro seu bicho de estimação, de você pro seu jardim, de você pro mundo, através da sensibilização por uma causa.

 

Mas a via mais linda e, arriscaria, mais necessária de se presentear dessa forma é entre pais e filhos. Em matéria de presente, a única coisa de que as crianças precisam é do tempo de seus pais e mães. Estar com eles, estar para eles. Não é sair pra comer, não é enquanto espera alguma coisa, não é respondendo mensagens no celular. E também não precisa ser “muito tempo” (o que seria muito?!), mas às vezes ficamos na ilusão de reservar um dia todo e esse dia nunca chega. Meia hora que seja, mas meia hora de total presença e entrega.

 

Lembre-se das ressalvas que fiz. Primeiro você tem que querer. Então, por mais que seja um presente e presente tenha que agradar o presenteado, escolha um programa que você goste. Obviamente um programa que contemple a idade da criança, mas não precisa ser “coisa de criança”. E você não precisa nem perguntar se a criança quer. Simplesmente fale: hoje à tarde vamos fazer um passeio no centro da cidade. E então abra-se pra segunda ressalva, que é estar atento às necessidades da criança. Você escolheu o programa, mas o programa não precisa acontecer exatamente da forma como você idealizou. Na verdade, o programa escolhido é só um pano de fundo, um ponto à partir do qual a criança será seu guia. Esteja aberto.

 

O programa pode ser também alguma coisa em casa, algo que você goste de fazer quando está em casa. E de novo, esse é só um ponto de partida. Não é o “seu momento em casa” (certamente você precisa dele, encontre-o), mas agora é o seu momento de presentear seu filho em casa. Sentiu a diferença? Você escolhe o cenário, a criança define o roteiro.

 

Essa modalidade de presentear funciona entre pai e filho/a ou mãe e filho/a, mas também é incrível entre família, com uma alquimia ainda mais forte (quanto mais gente, mais forte). Não precisa ser exatamente pai, mãe e filho/a/s, afinal as famílias estão cada vez mais diversas. Quem é a sua família? Quem é a família que você quer que seu filho reconheça como tal? Como é quando o presente é entre duas pessoas? Como é quando esse presente é coletivo? Um dá e vários recebem? Vários dão e um recebe? Ou no final já não se sabe mais quem dá e quem recebe?!

 

Essas perguntas não são para serem simplesmente respondidas, pela resposta em si, mas para serem percebidas, sentidas. Cada resposta vai te dizer um pouco de você, um pouco de seu filho, um pouco da sua família. Cuide das coisas que você gosta, transforme as que não gosta e embarque nessa maravilhosa aventura que é a Vida!

 

Esse é o primeiro texto especialmente escrito pela Carol para o blog do Just So Brasil e inaugura formalmente essa parceria, onde ela contribuirá periodicamente com suas reflexões. Você encontra mais escritos da Carol nos blogs Aralume e O Filho do Aralume.